Fim do Monopólio? O Significado de Ver MPLA e UNITA Juntos em Missão Oficial na China

Ao incluir a oposição numa comissão paritária em Pequim e Xangai, o Presidente da Assembleia Nacional, Adão de Almeida, rompe com o clientelismo histórico. Estará o regime a aceitar que Angola deve ser governada por mérito e competência, e não por conveniências partidárias?

Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político

Uma Abertura Inédita na Diplomacia Parlamentar

A recente missão parlamentar oficial à República Popular da China, liderada pelo Presidente da Assembleia Nacional, Adão de Almeida, inscreveu um capítulo invulgar e surpreendente nos hábitos políticos de Angola. Contrariando a praxe exclusivista e monopolista que caracterizou as presidências anteriores do hemiciclo, a delegação que cumpriu a agenda de trabalhos em solo asiático foi composta, em partes rigorosamente iguais, por deputados do MPLA e da UNITA.

A imagem de parlamentares de bancadas historicamente desavindas — com destaque para a presença de Manuel Dembo, primeiro-secretário da Mesa da Assembleia Nacional (UNITA) — a subscreverem e acompanharem em conjunto o Memorando de Entendimento com o líder da Assembleia Popular Nacional da China, Zhao Leji, carrega um simbolismo político que não pode ser ignorado. Fora das fronteiras nacionais, no exercício da diplomacia de Estado, a representação da pátria deixou de ser propriedade privada de uma bandeira partidária. Esta inédita abertura levanta uma reflexão urgente: estará o topo do poder em Luanda finalmente a compreender que o país deve ser governado pelas suas competências e pelo mérito, ou assistimos apenas a uma bem ensaiada operação de cosmética internacional?

O Aprendizado Geo-Económico: A Lição da Meritocracia Chinesa

A escolha do destino para esta histórica missão paritária encerra uma ironia profunda. A comissão parlamentar angolana viajou para absorver experiências em setores críticos como a transição digital, a sustentabilidade, a indústria farmacêutica e o desenvolvimento agroalimentar, visitando o centro tecnológico da Huawei e institutos científicos em Hebei e Xiong'an.

Independentemente das críticas ideológicas legítimas ao modelo político centralizado de Pequim, existe uma lição de geo-economia que o Estado chinês ministra com mestria ao mundo: o pragmatismo e a meritocracia técnica. A China transformou-se numa superpotência porque colocou os seus melhores cérebros, engenheiros e cientistas na liderança dos projetos de desenvolvimento, priorizando a competência técnica em detrimento das filiações de conveniência.

Em contraste, o modelo de governação que vigorou em Angola tendeu historicamente a privilegiar o "cartão do partido" como critério supremo de ascensão e liderança. O resultado deste clientelismo institucional está espelhado na nossa realidade: empresas públicas falidas, ministérios ineficazes e uma gritante incapacidade de traduzir a imensa riqueza petrolífera e mineral em saneamento básico, eletricidade, água potável ou dignidade social para as populações do interior profundo.

O Fim do Monopólio Exige Espaço Fora de Pequim

O passo institucional dado por Adão de Almeida ao incluir de forma equilibrada o principal partido da oposição merece o devido reconhecimento pelo seu caráter diferenciador. No entanto, para que este sinal tenha valor real para o cidadão comum, ele não pode ficar confinado aos salões protocolares de Pequim ou Xangai.

A governação por competências exige entender que a inteligência, a capacidade técnica e o patriotismo não são exclusivos de um quadrante político. Angola possui quadros altamente qualificados na sociedade civil, nas universidades, na oposição e na diáspora que continuam deliberadamente marginalizados apenas por exercerem o direito de pensar de forma independente.

O verdadeiro teste desta aparente "nova era" de maturidade democrática não se mede pelas viagens em classe executiva a convite de parceiros internacionais. Mede-se em Luanda. Medir-se-á quando o Parlamento tiver a coragem de viabilizar comissões de inquérito independentes, quando a fiscalização do Orçamento Geral do Estado for um ato sério e quando as nomeações para cargos de direção pública e gestão económica começarem a exigir currículos de excelência e provas dadas, em vez de juramentos de fidelidade partidária.

Conclusão

O gesto de Adão de Almeida na China abre uma réstia de esperança numa engrenagem política viciada no confronto estéril e na exclusão. Se o MPLA finalmente compreendeu que Angola é demasiado grande e os seus desafios sociais demasiado complexos para serem geridos por um clube exclusivo de fiéis, este pode ser o início de uma transição necessária rumo ao desenvolvimento real. Mas se tudo isto for apenas um "turismo de fachada" para suavizar a imagem internacional do regime perante os credores, o custo da viagem terá sido apenas mais um desperdício para o erário público. A competência não sobrevive de aparências; exige espaço real para agir e transformar a vida dos cidadãos.

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Estará o Governo finalmente a aceitar que Angola deve ser governada pela competência e não pela cor do partido?

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9/18/20263 min ler

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