MILHÕES PARA TRAZER CELEBRIDADES E DÍVIDA DE 520 MILHÕES PARA DAR ÁGUA AO POVO: ATÉ QUANDO ESTE TURISMO DE FACHADA?

Bancos internacionais emprestam 520 milhões de euros a Angola para abastecimento de água no leste do país

Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político

LUANDA — O Executivo angolano oficializou a contratação de um financiamento internacional no valor global de 520 milhões de euros (cerca de 554 mil milhões de kwanzas) para a execução de infraestruturas hídricas nas províncias da Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico [74626.html]. A medida consta do Despacho Presidencial n.º 124/24, que autoriza a ministra das Finanças a assinar os acordos de crédito.

A operação financeira foi estruturada junto do sindicato bancário liderado pelo banco britânico Standard Chartered Bank, contando com o suporte e garantia da Bpifrance, a Agência de Crédito à Exportação do Estado francês. O montante total está dividido em duas frentes contratuais: a primeira, de 456,47 milhões de euros, assume 85% do custo comercial e inclui um prémio de seguro de 64,9 milhões de euros; a segunda parcela, fixada em 63,8 milhões de euros, cobre os restantes 15% da empreitada e uma taxa de mitigação de risco de 6,7 milhões de euros.

O projeto visa a construção e reabilitação de 50 sistemas de captação, tratamento e distribuição de águaem várias sedes municipais e comunais da região leste do país, uma das mais afetadas pela escassez de redes de saneamento básico e água potável.

Análise Crítica: Festas de Milhões, Água a Crédito — O Insulto das Prioridades em Angola

A leitura fria dos despachos e dos números oficiais revela uma contradição moral e política que o cidadão comum se recusa a aceitar. Apenas escassos dias antes de o país contrair mais uma dívida milionária para garantir a sobrevivência básica do seu povo [74626.html], as atenções e os fundos públicos da capital estavam concentrados noutra realidade. Luanda transformou-se num palco VIP para acolher o circuito náutico internacional de elite E1 Luanda GP, abrindo o tapete vermelho do Palácio Presidencial para astros norte-americanos como Will Smith e LeBron James.

Esta justaposição de eventos expõe de forma crua uma grave inversão de prioridades na governação do país:

  • Para o Capricho, Há Dinheiro Líquido: Para subsidiar e montar operações de charme internacional, com barcos elétricos ultra-tecnológicos e estadias de luxo na Ilha de Luanda, as verbas aparecem de imediato. O retorno real deste investimento para o angolano que passa fome ou vive na periferia é rigorosamente zero. O turismo não se sustenta de forma isolada numa capital maquilhada, enquanto o resto do território carece do elementar.

  • Para a Sobrevivência, Há Dívidas Comerciais: É profundamente vergonhoso ver um Estado soberano, rico em recursos minerais e petrolíferos, necessitar de se endividar até ao pescoço junto da banca privada internacional para colocar torneiras a funcionar [74626.html]. Pior ainda é constatar que mais de 71 milhões de euros deste novo empréstimo não serão convertidos em canos ou estações de tratamento, mas sim gastos em prémios de seguro e taxas de risco bancário exigidos pelos credores estrangeiros.

  • A Cortina de Fumo das Celebridades: Tirar fotos sorridentes com estrelas de Hollywood e da NBA, oferecendo camisolas da seleção nacional, enquanto em simultâneo se assinam decretos de endividamento massivo [74626.html], revela uma desconexão assustadora com a fome, a seca e a miséria que fustigam o interior do país.

Angola não necessita de marketing internacional vazio nem de ilusões desenhadas para as redes sociais. O país precisa de infraestruturas sérias, de uma gestão responsável do erário público e de governantes que compreendam que a dignidade e a saúde de um povo que tem sede vale infinitamente mais do que o aplauso passageiro de qualquer celebridade estrangeira.

💬 E você, o que pensa?

Acredita que este 'turismo de fachada' traz algum retorno económico real para os angolanos, ou serve apenas como uma cortina de fumo para mascarar o endividamento galopante do Estado?

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9/15/20263 min ler

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