
Até Quando os Angolanos Morrerão Burramente nas Estradas?
Tragédia na EN100: Quando a morte deixa de ser acidente e passa a ser sistema
Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político
Onze mortos.
Dezenas de feridos.
Mais uma manchete.
Mais uma fotografia de viaturas destruídas.
Mais um comunicado de pesar.
Mais uma promessa de investigação.
Mais uma semana de indignação que, provavelmente, terminará como tantas outras: sem mudanças profundas.
A colisão frontal entre um autocarro da empresa Macon e uma motorizada de três rodas que transportava bidões de combustível na localidade de Kimbaula, província do Kwanza-Sul, que resultou em 11 mortos e dezenas de feridos, não deve ser vista como um simples acidente rodoviário. Segundo as notícias divulgadas, trata-se de mais uma tragédia numa estrada que há muito se transformou num corredor de risco permanente. As informações conhecidas apontam para uma colisão frontal grave que envolveu passageiros e transporte de combustível.¹²
Mas a verdadeira pergunta não é quantas pessoas morreram.
A pergunta é: até quando os angolanos continuarão a morrer de forma previsível nas estradas do país?
Porque quando tragédias semelhantes se repetem ano após ano, deixam de ser acidentes.
Passam a ser sintomas.
A Estrada Que Já Não Mata por Acaso
Sempre que acontece uma tragédia rodoviária em Angola, a explicação surge rapidamente.
Excesso de velocidade.
Imprudência.
Falha humana.
Ultrapassagem perigosa.
Distração.
E, muitas vezes, essas explicações são verdadeiras.
Mas são incompletas.
Porque a verdade mais desconfortável é que a morte nas estradas angolanas não resulta apenas do comportamento dos condutores.
Resulta também de um sistema que tolera a desordem.
Resulta de fiscalização insuficiente.
Resulta de veículos em estado questionável.
Resulta da circulação de meios improvisados para transporte de pessoas e mercadorias.
Resulta da ausência de cultura de segurança rodoviária.
Resulta da falta de prevenção.
E resulta da normalização do risco.
O País Onde Tudo Circula na Mesma Estrada
Em muitas regiões de Angola, a mesma estrada serve simultaneamente para:
autocarros interprovinciais;
camiões pesados;
táxis colectivos;
motorizadas;
triciclos de carga;
vendedores ambulantes;
peões;
animais.
Tudo no mesmo espaço.
Tudo sob as mesmas condições.
Tudo muitas vezes sem sinalização adequada.
A tragédia do Kwanza-Sul revela precisamente essa realidade.
Um autocarro de passageiros e uma motorizada de três rodas que transportava combustível.
Basta esta descrição para perceber que o risco estava presente muito antes do momento da colisão.
O Combustível Sobre Rodas
Outro elemento particularmente preocupante é o transporte de combustível em meios improvisados.
A presença de bidões de combustível numa motorizada de três rodas não representa apenas risco para o condutor.
Representa risco para todos os utilizadores da estrada.
Numa colisão, o combustível transforma-se imediatamente num multiplicador da tragédia.
A explosão.
O incêndio.
O aumento da gravidade dos ferimentos.
Tudo se torna mais provável.
A questão é inevitável:
Como é possível que actividades desta natureza continuem a ser realizadas com tamanha frequência sem mecanismos eficazes de controlo?
A Cultura do “Desenrasque”
Existe uma realidade que muitos preferem ignorar.
Em Angola, uma parte considerável da economia informal funciona através do improviso.
O cidadão encontra soluções onde o Estado não consegue garantir respostas suficientes.
O problema é que algumas dessas soluções criam riscos gigantescos.
Transportar combustível em condições precárias.
Circular com excesso de passageiros.
Transformar veículos de carga em transporte humano.
Adaptar motorizadas para actividades para as quais nunca foram concebidas.
Tudo isso nasce de necessidades reais.
Mas necessidades reais não anulam riscos reais.
E os mortos acabam por pagar a factura desse improviso.
Quando a Indignação Tem Prazo de Validade
Existe também outra tragédia.
A tragédia da memória curta.
Durante alguns dias, todos falam do assunto.
As redes sociais enchem-se de mensagens.
Os jornais publicam reportagens.
As rádios discutem responsabilidades.
Os políticos apresentam condolências.
Depois vem outra notícia.
Outro escândalo.
Outro debate.
E os mortos desaparecem da conversa.
Até à próxima colisão.
Até ao próximo funeral colectivo.
Até ao próximo autocarro tombado.
Até ao próximo acidente que poderia ter sido evitado.
O Problema Não é a Estrada. É a Gestão da Estrada.
Muitas vezes culpa-se apenas a infraestrutura.
É verdade que Angola ainda possui desafios importantes em matéria rodoviária.
Mas o problema não é apenas o asfalto.
É a gestão.
Uma estrada segura depende de:
fiscalização constante;
controlo técnico dos veículos;
formação dos condutores;
punição efectiva das infracções;
sinalização adequada;
assistência rápida às vítimas;
política pública consistente.
Sem isso, até a melhor estrada do mundo pode tornar-se um cenário de morte.
Quanto Vale Uma Vida em Angola?
Há uma pergunta que raramente é feita.
Quanto custa economicamente cada tragédia rodoviária?
Perdem-se vidas.
Perdem-se trabalhadores.
Perdem-se pais.
Perdem-se mães.
Perdem-se estudantes.
Perde-se rendimento familiar.
Perde-se produtividade.
Perde-se capacidade económica.
O impacto das mortes rodoviárias não termina no local do acidente.
Continua durante anos nas famílias atingidas.
A pobreza de muitas casas começa precisamente no dia em que um dos seus membros morre numa estrada.
A Responsabilidade Não Pode Ser Apenas do Condutor
É fácil encontrar um culpado individual.
É mais difícil enfrentar responsabilidades colectivas.
Uma sociedade séria pergunta:
O veículo estava em condições?
O transporte era legal?
A fiscalização funcionou?
As autoridades conheciam o problema?
Havia medidas preventivas suficientes?
O risco era conhecido?
Porque quando um problema se repete continuamente, a questão deixa de ser individual.
Torna-se institucional.
O Que Falta Fazer?
Angola precisa urgentemente de uma estratégia nacional de segurança rodoviária que vá além das campanhas ocasionais.
É necessário:
reforçar a fiscalização nas principais rodovias;
controlar o transporte de combustíveis;
melhorar as inspecções técnicas;
combater o transporte irregular;
investir na educação rodoviária;
criar mecanismos permanentes de prevenção.
Mais importante ainda: é preciso transformar a segurança rodoviária numa prioridade política.
Porque as estradas matam silenciosamente todos os anos mais angolanos do que muitos dos problemas que ocupam diariamente o debate público.
Conclusão
A tragédia da EN100 não é apenas uma notícia.
É um aviso.
Onze mortos não representam apenas onze destinos interrompidos.
Representam o fracasso colectivo de um sistema que continua a permitir que riscos conhecidos circulem livremente pelas estradas nacionais.
As vítimas desta colisão não morreram apenas por causa de um impacto frontal.
Morreram também por causa da tolerância ao improviso, da fragilidade da fiscalização, da normalização do perigo e da ausência de uma cultura de segurança rodoviária verdadeiramente efectiva.
Até quando?
Essa é a pergunta que continua sem resposta.
Porque uma nação não se mede apenas pelas estradas que constrói.
Mede-se também pela capacidade de proteger as vidas que circulam nelas.
💬 E você, o que pensa?
Quantas tragédias mais terão de acontecer para que a segurança rodoviária deixe de ser uma reacção após os acidentes e passe a ser uma política nacional de prevenção?
Até Quando os Angolanos Morrerão Burramente nas Estradas? A Tragédia da EN100 e o Fracasso da Segura
A tragédia da EN100 não foi apenas um acidente. Foi mais um aviso de que a falta de fiscalização, o transporte inseguro de combustível e a cultura do improviso continuam a custar vidas em Angola.
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8/3/20265 min ler
