TRATAR O BILHETE DE IDENTIDADE AO DOMICÍLIO VAI CUSTAR 250 MIL KWANZAS

Quando a modernização se transforma num privilégio e o Estado parece esquecer a realidade dos cidadãos

Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político

Há decisões governamentais que geram discussão. Há outras que provocam indignação. E há aquelas que expõem uma distância preocupante entre quem governa e quem vive diariamente os problemas do país.

O anúncio do novo serviço de tratamento do Bilhete de Identidade (BI) ao domicílio enquadra-se nesta última categoria.

O Ministério da Justiça e dos Direitos Humanos lançou um serviço que permite ao cidadão tratar todo o processo do Bilhete de Identidade sem sair de casa. Uma equipa desloca-se à residência ou ao local de trabalho, recolhe os dados biométricos, tira a fotografia e entrega o documento. Tudo isto por 250 mil kwanzas. A modalidade de entrega ao domicílio, para quem já tratou o documento num posto normal, terá um custo de 10 mil kwanzas.

O Governo chama-lhe modernização.

Mas para muitos cidadãos a pergunta é outra:

Será isto modernização ou apenas mais uma demonstração de que os serviços públicos estão cada vez mais distantes da realidade económica da maioria dos angolanos?

Os Números Que Explicam a Revolta

Os números dispensam grandes explicações.

Enquanto a emissão normal de um Bilhete de Identidade custa cerca de 400 a 480 kwanzas, o novo serviço de tratamento ao domicílio custará 250 mil kwanzas. Em termos práticos, significa que o Estado cobrará mais de 500 vezes o valor do procedimento tradicional para levar o mesmo serviço à residência do cidadão.

Quem optar apenas pela entrega do documento em casa pagará 10 mil kwanzas, valor que já representa várias vezes o custo da emissão normal.[angop.ao]

Mas é quando se compara esta taxa com o rendimento dos trabalhadores que a dimensão do problema se torna evidente.

Para um trabalhador que recebe o salário mínimo das microempresas, fixado em 50 mil kwanzas, o serviço corresponde a cinco meses completos de trabalho. Para quem aufere o salário mínimo geral de 100 mil kwanzas, representa o equivalente a dois meses e meio de salário.

Isto significa que muitos cidadãos terão de escolher entre pagar a alimentação da família, suportar despesas de transporte, comprar medicamentos ou tratar um documento fundamental sem sair de casa.

Por outras palavras, aquilo que o Governo descreve como um serviço de comodidade aproxima-se mais de um produto de luxo do que de um serviço público acessível à maioria da população.

E é precisamente por isso que a indignação se espalhou tão rapidamente.

Porque o problema já não é apenas o preço.

O problema é a mensagem que ele transmite.

Numa altura em que milhões de cidadãos continuam a enfrentar dificuldades económicas, o Estado está a anunciar um serviço que custa mais do que aquilo que muitos trabalhadores conseguem ganhar em vários meses de esforço diário.

Na prática, o serviço custa:

  • cinco vezes o salário mínimo das microempresas;

  • duas vezes e meia o salário mínimo geral;

  • centenas de vezes mais do que a emissão tradicional.

Quando uma simples deslocação administrativa custa mais do que aquilo que muitos trabalhadores recebem durante um mês inteiro de trabalho, a questão deixa de ser apenas económica.

Torna-se social.

Torna-se política.

Torna-se moral.

O GOVERNO DIZ QUE É UM SERVIÇO DE EXCLUSIVIDADE

O Ministro da Justiça justificou o valor afirmando que a taxa reflete os custos da deslocação das equipas técnicas, equipamentos biométricos, viaturas, logística e recursos humanos mobilizados para prestar um serviço personalizado. O governante classificou o produto como um serviço de exclusividade destinado a quem deseja comodidade e tem capacidade financeira para o pagar.

A explicação, do ponto de vista técnico, tem lógica.

Nenhuma operação deste tipo é gratuita.

Mas a questão principal continua sem resposta.

Será que um Estado moderno deve responder aos problemas dos cidadãos criando serviços de luxo ou resolvendo primeiro os problemas básicos que afetam a maioria da população?

O QUE FAZEM OS PAÍSES DESENVOLVIDOS?

É precisamente aqui que a comparação internacional se torna relevante.

Nos países frequentemente apresentados como exemplos de eficiência administrativa, a modernização tende a seguir um caminho muito diferente.

Portugal: Entrega em Casa Sem Custos Adicionais

Em Portugal, os cidadãos podem renovar o Cartão de Cidadão online ou através de renovação automática e recebê-lo em casa por correio registado.

Mais importante ainda:

A entrega do Cartão de Cidadão ao domicílio não implica custos adicionais relativamente ao processo de renovação. O objetivo assumido pelo Estado português é simplificar a vida do cidadão através da digitalização e não transformar a comodidade num produto de luxo.

França: Identidade Como Direito

Em França, a renovação do cartão nacional de identidade é gratuita quando o cidadão apresenta o documento anterior. O foco está na acessibilidade universal do serviço e na simplificação dos procedimentos administrativos.

Reino Unido: Rapidez Sem Transformar a Identidade em Luxo

Mesmo no Reino Unido, onde existem serviços urgentes para passaportes, a lógica continua a ser garantir rapidez e previsibilidade, sem transformar a documentação fundamental num serviço reservado apenas a uma elite económica. Os serviços urgentes existem porque o serviço normal funciona e porque respondem a necessidades específicas.

ANGOLA ESTÁ A MODERNIZAR O LUXO ANTES DE MODERNIZAR O BÁSICO

É aqui que muitos cidadãos identificam uma profunda contradição.

A maior parte dos países desenvolvidos tornou os serviços públicos melhores porque:

  • reduziram burocracias;

  • reduziram custos;

  • simplificaram processos;

  • digitalizaram procedimentos;

  • aproximaram os serviços das pessoas.

Em Angola, muitos observadores entendem que a ordem das prioridades parece invertida.

Antes de resolver os problemas do sistema normal, cria-se uma modalidade premium.

Antes de corrigir a estrada principal, constrói-se uma faixa VIP.

O PAÍS ONDE MILHÕES AINDA NÃO POSSUEM BI

Segundo dados oficiais referidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 16 milhões de angolanos possuem Bilhete de Identidade, o que representa menos de metade da população do país.

Este dado deveria ser suficiente para orientar a política pública.

O verdadeiro desafio nacional continua a ser:

documentar milhões de cidadãos que ainda estão fora do sistema formal de identificação.

Quando milhões continuam sem BI, muitos perguntam se a prioridade deveria estar na massificação do acesso ou na criação de serviços exclusivos.

A QUESTÃO DOS CONSULADOS E DA DIÁSPORA

Talvez seja aqui que o debate ganha maior força.

Durante anos, muitos angolanos residentes no estrangeiro têm relatado dificuldades relacionadas com documentação, emissão de passaportes, renovação de documentos e procedimentos consulares.

As experiências variam de consulado para consulado.

Nem todos enfrentam os mesmos problemas.

Mas existem reclamações recorrentes frequentemente discutidas por membros da diáspora:

  • dificuldades em conseguir marcações;

  • tempos de espera elevados para alguns processos;

  • necessidade de múltiplas deslocações para resolver um único assunto;

  • dificuldades de comunicação com determinados serviços;

  • atrasos na emissão ou entrega de documentos.

Perante esta realidade, muitos emigrantes observam o anúncio dos 250 mil kwanzas e fazem uma pergunta simples:

Como pode existir capacidade para criar um serviço premium enquanto persistem dificuldades em diversos serviços documentais considerados essenciais?

O problema não é apenas financeiro.

É uma questão de prioridades.

UM ESTADO DE DUAS VELOCIDADES

A polémica também alimenta outra preocupação.

A criação de um sistema onde coexistem:

Para quem pode pagar:

  • atendimento personalizado;

  • deslocação da equipa técnica;

  • comodidade total;

  • rapidez.

Para quem não pode pagar:

  • filas;

  • deslocações;

  • limitações do serviço tradicional;

  • dependência da capacidade instalada existente.

Mesmo sendo um serviço opcional, a perceção é poderosa.

Muitos cidadãos sentem que se está a criar uma administração pública a duas velocidades.

Uma para os que têm recursos.

Outra para todos os restantes.

MODERNIZAÇÃO OU SINTOMA DE ATRASO?

O Governo apresenta a medida como um avanço.

Mas muitos cidadãos veem precisamente o contrário.

Porque a verdadeira modernização não acontece quando nasce um serviço de luxo.

A verdadeira modernização acontece quando:

  • o cidadão deixa de passar horas numa fila;

  • os documentos são emitidos rapidamente;

  • os sistemas funcionam;

  • os consulados respondem eficazmente;

  • os postos de atendimento resolvem os problemas em tempo útil;

  • os direitos básicos deixam de depender da capacidade financeira.

Por isso, para muitos críticos, o problema não está no serviço em si.

O problema está no facto de o serviço surgir antes da resolução dos problemas estruturais que continuam a afetar a maioria da população.

CONCLUSÃO

O tratamento do Bilhete de Identidade ao domicílio por 250 mil kwanzas pode ser apresentado como uma inovação administrativa.

Mas também expõe uma realidade desconfortável.

Enquanto países desenvolvidos utilizam a tecnologia para reduzir custos, simplificar processos e aproximar os serviços dos cidadãos, Angola corre o risco de usar a mesma tecnologia para criar uma camada adicional de exclusividade.

Num país onde milhões ainda não possuem documentos de identificação, onde persistem desafios no funcionamento dos serviços administrativos e onde muitos cidadãos continuam a relatar dificuldades documentais dentro e fora do país, a criação de um serviço de 250 mil kwanzas levanta inevitavelmente dúvidas sobre prioridades.

Porque um Estado moderno não é aquele que cria uma porta VIP.

Um Estado moderno é aquele que faz a porta principal funcionar para todos.

💬 E você, o que pensa?

Num país onde milhões de cidadãos ainda enfrentam dificuldades para obter ou renovar documentos essenciais, a prioridade deveria ser criar um BI ao domicílio por 250 mil kwanzas ou garantir que todos conseguem aceder aos serviços básicos de forma rápida, eficiente e digna, independentemente do dinheiro que têm no bolso? 🇦🇴

BI ao Domicílio por 250 Mil Kwanzas: Modernização ou Privilégio em Angola?

Num país onde muitos cidadãos enfrentam dificuldades com documentos e serviços consulares, tratar o BI ao domicílio custará 250 mil kwanzas. Modernização ou exclusão?

ECONOMIAPOLITICANOVOARTIGO

7/29/20266 min ler

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