
Investigação Internacional Expõe Programa Governamental de Perfis Falsos nas Redes Sociais
Relatório do prestigiado laboratório canadiano Citizen Lab revela que funcionários da comunicação estatal angolana receberam formação forense da empresa israelita BlackCore para criar identidades artificiais e contornar a segurança das plataformas digitais.
Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político
A Dupla Face da Segurança Digital
O debate sobre a integridade do espaço digital em Angola ganhou uma nova e complexa dimensão regulatória. Pouco tempo após a aprovação parlamentar e consequente promulgação da Lei n.º 6/26 [citizenlab.ca/research/blackcores-influence-operations-for-hire/], desenhada sob o pretexto de combater a proliferação de notícias falsas (fake news) e crimes cibernéticos, uma investigação forense coordenada pelo Citizen Lab, da Universidade de Toronto, expôs o envolvimento de estruturas do Estado angolano em operações secretas de influência e manipulação de narrativas na internet.
O relatório técnico, subscrito pelos investigadores e analistas de segurança Alberto Fittarelli, John Scott-Railton e Maia Scott, identifica o Executivo de Luanda como cliente direto da BlackCore. Esta firma israelita, integrada no mercado global de mercenários digitais (influence-for-hire), foi contratada para implementar um programa de treino operacional centralizado, denominado "Angolan Government Campaign". O intuito principal assentava na capacitação técnica de agentes do Estado para a criação, gestão e difusão de redes de identidades inautênticas nas principais plataformas sociais.
Anatomia Forense da Operação: Autonomia e Evasão de Detecção
De acordo com os dados obtidos através da análise dos servidores e de documentos internos da BlackCore, o programa não se limitou a uma consultoria externa tradicional. A estratégia visava a transferência de competências tecnológicas para garantir a autonomia operacional das equipas angolanas :
Calendário Operacional: O programa de treino prático e de testes em ambiente real foi iniciado a 19 de janeiro de 2026, estendendo-se por 14 semanas ininterruptas
Capacidade de Evasão: Os peritos do Citizen Lab sublinham que a formação focou-se intensamente em ensinar os funcionários públicos a operarem as redes falsas minimizando os "rastros digitais". O objetivo era evitar o bloqueio e a detecção por parte dos sistemas de integridade automatizados da Meta (Facebook, Instagram) e do TikTok.
Falsificação de Identidade com Recurso a IA: A rede operava com avatares cujos rostos eram integralmente gerados por algoritmos de Inteligência Artificial. Entre as contas fictícias identificadas pela investigação forense, que simulavam ser cidadãos angolanos ou ativistas políticos locais, destacavam-se perfis como "Dorivaldo Kiala", "marcos.moves", "carlos.mendz1" e "joanamarques0na" .
Arquitetura de Media Falsos: Para ancorar as narrativas propagadas pelos perfis falsos, foi criada uma plataforma digital de fachada batizada de "Agita News" (composta por um portal web e páginas associadas) . Os relatórios de desempenho da operadora privada indicavam que as publicações forjadas alcançavam entre 20.000 a 50.000 interações de suporte, gerando uma falsa percepção de consenso público num ecossistema nacional estimado em 6 milhões de internautas ativos.
Ramificações Geopolíticas e o Domínio Técnico
A infraestrutura detectada em Luanda partilha os mesmos indicadores de compromisso e servidores de campanhas de desinformação recentemente desmanteladas na Europa. Em junho do presente ano, a Viginum (a agência governamental francesa de vigilância contra a interferência digital estrangeira) já havia associado a assinatura técnica da BlackCore a operações de desestabilização e manipulação do debate político em França, no Togo e na Escócia. O escândalo internacional forçou a empresa a desativar os seus portais públicos e perfis institucionais corporativos à pressa.
A descoberta expõe um paradoxo ético e legal na administração do erário público angolano. Ao mesmo tempo que o aparelho judicial e policial endurece a vigilância sobre as publicações de cidadãos, jornalistas e ativistas sob o manto da proteção da "verdade estatal", fundos públicos são desviados de setores sociais críticos — como a saúde ou o saneamento básico — para subsidiar o ecossistema de interferência computacional de entidades mercenárias estrangeiras .
Conclusão e Desafio Institucional
A revelação do caso BlackCore retira legitimidade moral ao discurso oficial de combate às notícias falsas em Angola. Demonstra que a maior ameaça à integridade da informação nas redes sociais nacionais provém, afinal, da própria máquina que deveria regulá-la. A estabilidade de uma democracia não se consolida através da simulação algorítmica de apoio popular ou da ocultação da dissidência sob identidades falsas geradas por computadores em Luanda ou Telavive. Exige transparência, prestação de contas e o respeito pelo livre arbítrio da opinião pública nacional.
Face às evidências apresentadas pelo Citizen Lab, considera que o Parlamento e a Procuradoria-Geral da República deveriam abrir um inquérito independente para auditar os contratos de comunicação digital do Estado, ou a segurança nacional justifica o uso destas ferramentas de influência? Partilhe a sua análise.
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Governo de Angola e BlackCore: O Escândalo dos Perfis Falsos
Investigação do Citizen Lab revela que funcionários do governo de Angola receberam treino da empresa israelita BlackCore para criar perfis falsos com IA e manipular as redes sociais.
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9/18/20263 min ler
