
O reacender dos combates no norte da Etiópia rompeu a frágil paz alcançada em 2022, provocou novos deslocamentos e aprofundou as rivalidades regionais. Enquanto governos disputam territórios, água e influência, são novamente as populações civis que pagam o preço mais elevado.
Paulo Muhongo — Escritor, Poeta e Analista Político
Os combates desencadeados em 23 de setembro entre as forças do Governo Federal e uma aliança de grupos armados, incluindo a Frente de Libertação do Povo de Tigray, conhecida pela sigla TPLF, representam a escalada militar mais grave desde o fim da guerra de 2020–2022. As hostilidades atingiram as regiões de Tigray, Amhara e Afar, reacendendo o receio de um conflito prolongado e de uma crise regional de consequências imprevisíveis.
A situação militar evoluiu rapidamente. Depois de forças rebeldes terem ocupado aeroportos e avançado em diferentes frentes, as forças federais e os seus aliados retomaram Mekelle, capital regional de Tigray. A TPLF confirmou que retirou da cidade e anunciou que a sua administração passaria temporariamente a funcionar noutro local.
A recuperação de Mekelle pelo Governo não significa, porém, o fim da guerra. A retirada rebelde pode apenas assinalar a passagem para uma nova fase, marcada por operações descentralizadas, ataques pontuais e uma instabilidade prolongada nas regiões do norte.
Um acordo de paz que nunca ficou completo
As raízes da atual crise remontam à guerra iniciada em novembro de 2020, quando as divergências entre o Governo Federal do primeiro-ministro Abiy Ahmed e a TPLF se transformaram num conflito devastador.
Durante dois anos, Tigray tornou-se palco de operações militares, bloqueios, deslocamentos em massa e destruição de infraestruturas. O Acordo de Pretória, assinado em novembro de 2022 com mediação da União Africana, interrompeu os combates em grande escala, mas várias questões fundamentais permaneceram por resolver.
Entre elas estavam o estatuto dos territórios disputados, o regresso das populações deslocadas e o desarmamento das forças de Tigray. Em julho de 2026, a TPLF declarou que o acordo estava, na prática, em colapso. O Governo Federal rejeitou essa interpretação e afirmou manter o compromisso com o processo de paz. [aljazeera.com],
A ausência de uma aplicação integral do acordo deixou espaço para a reconstituição das forças, o aprofundamento das divisões políticas e o regresso da lógica militar.
Esta é uma das principais lições da crise: assinar a paz não é o mesmo que a construir.
Afar e o regresso dos deslocamentos
O impacto humanitário voltou a fazer-se sentir muito para além de Tigray.
No final de setembro, uma fonte humanitária estimava que pelo menos 150 mil pessoas tinham sido deslocadas apenas na região de Afar, embora as limitações de comunicação e de acesso impedissem uma contagem rigorosa. A mesma fonte alertava para a dificuldade de determinar a verdadeira dimensão da emergência.
A interrupção das comunicações, o encerramento de estradas, a insegurança e a proximidade dos combates dificultam o acesso da ajuda humanitária. Para milhares de famílias, fugir significa abandonar casas, terras agrícolas, animais, escolas e meios de subsistência.
Por trás de cada mapa militar há uma família separada. Por trás de cada território conquistado existe uma aldeia que deixou de produzir alimentos. Por trás de cada declaração política há crianças que perderam o acesso à escola, à saúde e à segurança.
Em Shire, um condutor de 32 anos descreveu o regresso da guerra como profundamente doloroso, recordando que a população de Tigray ainda não recuperou das consequências do conflito anterior. O seu testemunho traduz um sentimento generalizado: para muitos habitantes, a nova ofensiva não é apenas mais uma crise política, mas o regresso de um trauma que nunca chegou a desaparecer.
Acusações que atravessam fronteiras
O conflito deixou rapidamente de ser apenas uma disputa interna.
O chefe das Forças Armadas etíopes acusou a Eritreia, o Egito e o Sudão de apoiarem os grupos armados que combatem o Governo Federal. Os três países negaram qualquer envolvimento.
Estas acusações devem ser apresentadas com prudência. Num conflito marcado por propaganda, restrições de acesso e comunicações interrompidas, uma alegação política não equivale a uma prova verificada.
A deterioração das relações diplomáticas, contudo, é evidente. O confronto militar no interior da Etiópia está a cruzar-se com disputas antigas sobre fronteiras, alianças regionais, utilização das águas do Nilo e acesso ao Mar Vermelho.
O risco é que uma guerra inicialmente conduzida dentro das fronteiras etíopes se transforme num conflito por procuração, alimentado por interesses externos e rivalidades acumuladas.
A Declaração de Alamein
A 4 de outubro, os líderes do Egito, da Eritreia, da Somália e do Sudão reuniram-se em New Alamein, no Egito.
Participaram na cimeira o Presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, o Presidente eritreu Isaias Afwerki, o Presidente somali Hassan Sheikh Mohamud e o chefe do Exército sudanês, Abdel Fattah al-Burhan
Na declaração conjunta, os quatro países defenderam o respeito pela soberania e integridade territorial dos Estados, o princípio da não ingerência e a resolução pacífica dos conflitos. Decidiram igualmente estabelecer um mecanismo permanente de acompanhamento e realizar novas consultas periódicas. [mena.org.eg], [mena.org.eg]
Sobre o Mar Vermelho, declararam que a sua governação deve permanecer sob responsabilidade dos Estados costeiros. Relativamente ao Nilo, defenderam o cumprimento do direito internacional, a consulta prévia e a rejeição de medidas unilaterais que prejudiquem os atuais usos da água no Egito e no Sudão.
A declaração não nomeou diretamente a Etiópia, mas abordou duas questões centrais para os interesses estratégicos de Addis Abeba: a gestão das águas do Nilo e a ambição etíope de garantir um acesso estável ao Mar Vermelho.
A resposta de Addis Abeba
No dia 5 de outubro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Etiópia reafirmou os interesses do país no Nilo Azul, conhecido localmente como rio Abay, e no Mar Vermelho.
O comunicado declarou que as realidades geográficas e históricas da região não podem ser alteradas por pressão política, medidas coercivas, ações de desestabilização ou agressões conduzidas através de intermediários. Ao mesmo tempo, Addis Abeba afirmou defender uma abordagem baseada no diálogo, no respeito mútuo, na cooperação regional e nas relações de boa vizinhança.
A resposta demonstra que a disputa ultrapassa o campo militar. Está em causa uma visão concorrente sobre a ordem regional: quem pode participar nas decisões sobre o Mar Vermelho, como devem ser geridos os recursos do Nilo e até onde pode ir a soberania de cada Estado quando as suas escolhas afetam os países vizinhos.
A barragem no centro da rivalidade
A Grande Barragem do Renascimento Etíope, construída no Nilo Azul, continua a ocupar um lugar central na tensão entre a Etiópia e os países a jusante.
Para Addis Abeba, a barragem representa desenvolvimento, produção de energia e afirmação do direito de utilizar os recursos naturais existentes no seu território. Para o Egito e o Sudão, qualquer gestão unilateral do rio pode afetar os atuais usos da água e a segurança das populações que dependem do Nilo.
A Etiópia sustenta que praticamente todo o Nilo Azul nasce nas terras altas etíopes e que este rio contribui com cerca de 85% do caudal total do Nilo. O Governo etíope considera que essa realidade deve ser reconhecida nas negociações sobre a utilização e gestão da água.
O problema não é apenas técnico. É também histórico, económico e político.
O Nilo é, simultaneamente, uma fonte de água, um instrumento de desenvolvimento e um símbolo de soberania. Enquanto cada país o tratar exclusivamente como património nacional, em vez de recurso partilhado, qualquer desacordo poderá ser interpretado como uma ameaça existencial.
O Mar Vermelho e a ambição de um país sem litoral
A Etiópia perdeu o acesso direto ao mar após a independência da Eritreia e tornou-se um país sem litoral. Apesar disso, Addis Abeba mantém que a sua dimensão populacional, posição geográfica e proximidade do Mar Vermelho lhe conferem interesses legítimos na segurança marítima regional.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros etíope assinalou que o ponto mais próximo da fronteira nacional se encontra a cerca de 48 quilómetros da costa e defendeu que qualquer debate sério sobre a arquitetura de segurança do Mar Vermelho deve considerar os interesses do país.
Do outro lado, os quatro países reunidos em New Alamein afirmaram que a governação do Mar Vermelho deve caber exclusivamente aos Estados costeiros.
Estas posições revelam uma incompatibilidade estratégica que não será resolvida por intimidação ou alianças militares. A Etiópia não pode ignorar a soberania dos países costeiros, mas esses países também não podem tratar os interesses económicos e de segurança etíopes como se fossem irrelevantes.
Nenhum país conseguirá vencer sozinho
O Nilo, o Mar Vermelho e as fronteiras herdadas da história não são troféus políticos. São linhas de sobrevivência partilhadas por milhões de pessoas.
Nenhum país pode garantir sozinho a segurança do Nilo. Nenhum Estado consegue controlar isoladamente os riscos no Mar Vermelho. Nenhum governo será verdadeiramente estável enquanto as populações vizinhas viverem cercadas pela guerra, pela fome e pelo deslocamento.
Alianças construídas contra um vizinho podem produzir vantagens diplomáticas de curto prazo, mas também aprofundam o sentimento de cerco e reduzem o espaço para compromissos. Da mesma forma, insistir em decisões unilaterais aumenta a desconfiança e aproxima a região de confrontos que poderiam ser evitados.
No Corno de África, a segurança não será sustentável enquanto continuar a ser entendida como a insegurança do outro.
O caminho possível para a paz
Uma paz duradoura exige mais do que a recuperação de cidades ou a assinatura de novos comunicados. Exige um processo político capaz de enfrentar as causas que permitiram o regresso da guerra.
Esse caminho deve incluir:
um cessar-fogo verificável entre as forças federais e os grupos armados;
acesso humanitário seguro e sem entraves às populações afetadas;
proteção dos civis e das infraestruturas essenciais;
investigação independente das alegações de apoio militar externo e das violações cometidas durante os combates;
aplicação efetiva das disposições ainda pendentes do Acordo de Pretória;
diálogo direto sobre os territórios disputados, o regresso dos deslocados e o desarmamento;
negociações regionais sobre o Nilo e o Mar Vermelho;
mediação africana com legitimidade, independência e capacidade de acompanhamento.
A União Africana deve ocupar o centro desse processo, mas a liderança africana não pode servir apenas como fórmula diplomática. Precisa de recursos, acesso às partes, mecanismos de verificação e apoio internacional sem substituição da vontade dos atores locais.
A paz também não pode ser negociada apenas entre palácios presidenciais, chefias militares e governos estrangeiros. Deve incluir comunidades deslocadas, autoridades locais, organizações humanitárias, representantes da sociedade civil e populações diretamente atingidas.
A escolha diante do Corno de África
A retoma de Mekelle pode alterar o equilíbrio militar, mas não resolve as divisões políticas que alimentam o conflito.
A guerra anterior demonstrou que é possível conquistar cidades sem conquistar confiança. Demonstrou também que uma vitória militar não elimina reivindicações históricas, ressentimentos comunitários ou disputas territoriais. Apenas os adia.
Os líderes da região enfrentam agora uma escolha. Podem continuar a transformar o Nilo, o Mar Vermelho e as fronteiras em instrumentos de rivalidade. Ou podem reconhecer que nenhum destes recursos oferece segurança quando é utilizado para excluir, pressionar ou enfraquecer o vizinho.
Enquanto essa escolha não for feita, serão novamente as famílias, os agricultores e as crianças a pagar por decisões tomadas longe das suas casas.
A paz no Corno de África não nascerá de alianças construídas contra um país. Nascerá de diálogo honesto, acesso humanitário, verificação independente das acusações, aplicação dos acordos existentes e mediação africana que trate todas as partes com dignidade.
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10/5/20268 min ler
